Onde está meu mozão?


Pode ser que eu a encontre numa fila de cinema, numa esquina ou numa mesa de bar.”
                                                            (Frejat)

Meus pais se conheceram enquanto eram vizinhos em um prédio na Beira-Mar de Fortaleza. Ela veio do interior do Ceará e ele dos confins do Rio Grande do Norte. Encontraram-se no elevador, trocaram olhares e depois descobriram que moravam um abaixo do outro. O flerte seguiu com minha mãe chamando a atenção do meu pai na varanda ao jogar pedaços da cenoura que ela estava descascando no andar de baixo. Esquisito, eu sei, mas a conversa engatou e 6 meses depois eles caminhavam rumo ao altar. Isso faz 45 anos.
Para a geração deles, casar com um vizinho era o que hoje pode ser considerado um padrão comportamental. Lendo o livro Romance Moderno, de Aziz Ansari, descobri um dado interessante sobre o assunto. Uma análise realizada em 1932 pelo sociólogo James Bossard, da Universidade da Pensilvânia, mostrou que um terço dos casais de uma amostra de 5 mil certidões de casamento morava a cerca de cinco quarteirões de distância antes de casarem. Um em cada seis casais examinados morava no mesmo quarteirão e, a cada oito casais, um morava no mesmo prédio.
Achei curioso e, apesar de ter meus palpites sobre como isso acontece hoje em dia, resolvi fazer minha própria pesquisa. Lancei uma pergunta no meu perfil do Instagram e recebi 54 respostas. Mais da metade das respostas, no entanto, foi justamente o que eu esperava: Tinder ou algum outro aplicativo de relacionamentos.
Na época dos meus pais, isso era impensável. Primeiro porque a tecnologia não havia evoluído a esse ponto. Segundo porque conhecer alguém na internet seria considerado algo arriscado demais. Só que os tempos mudaram, a gente passa mais tempo com a cara grudada no celular do que qualquer outra coisa e, se algo assim não fosse inventado, boa parte da população mundial permaneceria solteira.
Não quero entrar no mérito do cardápio humano, apenas refletir no quanto a possibilidade de escolha aumentou com essa novidade. O mundo se expandiu. Milhares de opções estão disponíveis na palma da mão e você só precisa passar para um lado para “sim” e para o outro se for “não”. Ao mesmo tempo, com tantas opções, deve ser difícil decidir. No curto período em que usei o aplicativo fiquei muito ansiosa e com o chamado FOMO (fear of missing out, algo como “o medo de estar perdendo algo”). E se eu tivesse acabado de dar um “não” para o amor da minha vida? Aquilo não deu pra mim e preferi arriscar em conhecer meu amor nos métodos mais tradicionais. Naquela época eu nem suspeitava de que já o havia conhecido, na fila do ponto do trabalho, assim como outros seis gatos pingados da minha pesquisa.
Conversando com uma amiga solteira sobre essas ferramentas de conhecer pretendentes, ela compartilhou um medo curioso. Disse que não havia aderido ao Tinder porque não fazia seu estilo e que tinha certeza que o amor de sua vida também não estaria em um aplicativo desses. “O problema”, ela disse, “é que a pessoa perfeita pra mim está em casa lendo um livro e assistindo a filmes e séries. Só que eu também estou em casa fazendo o mesmo. Como a gente vai se conhecer dessa forma?”
Eu não soube o que responder nem como ajudar minha amiga. Mas, voltando à minha pesquisa, apenas duas pessoas responderam que ainda não conheceram seu amor. Estou pensando seriamente em apresentar os dois.

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