domingo, 3 de janeiro de 2016

Resenha: "Se só me restasse uma hora de vida", de Roger-Pol Droit

Se só me restasse uma hora de vida, de Roger-Pol Droit
Se só me restasse uma hora de vida, de Roger-Pol Droit
"se só me restasse uma hora de vida, apenas uma hora, exatamente,
inelutavelmente, o que eu faria?
que atos realizar?
que pensar, sentir, querer?
que traços deixar?"
Em "Se só me restasse uma hora de vida", o jornalista, escritor e filósofo francês Roger-Pol Droit se propõe um exercício de auto-reflexão: após o questionamento surgir repentinamente para ele, assim como um dia surgirá – se é que já não o fez – para cada um de nós, ele conta em detalhes o que faria se soubesse que morreria dentro de uma hora. Ele sabe que, quando o momento chegar, não terá tempo ou lucidez suficientes para dizer tudo que tem para externar, portanto escolhe fazê-lo logo.

O autor deixa claro que a humanidade não sabe o que a espera após a morte e que nem ele tem a pretensão de passar seus últimos momentos refletindo sobre isso. Assim, em sua forjada última hora no corpo em que habita, ele não fala de morte. Fala de vida. Fala do que, em poucos instantes, deixará para trás.
"eu vou acabar exatamente como sou, sem ter tempo de nada, de engordar nem de emagrecer, de me curar nem de cair doente,
também já não tenho tempo para enriquecer nem empobrecer, mudar de situação, de condição, de status"
Em seu discurso sobre o viver, ele acaba abordando questões essenciais da filosofia. Já era de se esperar do livro de um filósofo, não é mesmo? Ele fala sobre a humanidade e sua relação com as dúvidas acerca da nossa existência, sobre a incansável busca pelo conhecimento, sobre os avanços científicos e filosóficos e sobre como nos apropriamos deles, sobre o amor e o ódio, bem como sobre outros tópicos, mistérios e milagres da vida, que afligem a raça humana.
"o simples fato de viver sempre me pareceu em si mesmo desejável, incrivelmente milagroso
presença doada, indefinidamente renovada,
caixinha de surpresas inesgotável e sem fundo
de tal maneira que jamais me passaria pela cabeça não começar de novo"
Enquanto mergulha num fluxo de pensamento sobre esses assuntos, Roger-Pol Droit discorre sobre as ideias de alguns conceituados filósofos e pensadores, ora concordando, ora criticando seus legados. Os pensamentos de Spinoza, Freud, Nietzsche, Montaigne e tantos outros nomes já familiares ganham espaço na narrativa.

Muito me agradou o jeito de Roger-Pol Droit escrever: tudo em minúsculas e muitas pausas, sempre definidas por vírgulas, nunca pontos finais, e uma narrativa curta mas repleta de conteúdo. Talvez uma referência à brevidade da vida? Não sei, já posso estar viajando. Mas é sintoma de ler um livro tão cheio de reflexões e que, apesar de ser uma grande resposta do autor à dúvida maior da narrativa, acaba se tornando uma grande interrogação para o leitor. E se fosse eu? E se só me restasse uma hora de vida? O que faria?
"e então?
eu é que não sei
e ninguém sabe
não creio que alguém possa saber
melhor faríamos esquecendo o assunto
e não só essa questão
como também muitas outras"
Ficha técnica
Título: Se só me restasse uma hora de vida
Autor: Roger-Pol Droit
Páginas: 98
Editora: Bertrand Brasil

Um comentário :

  1. Nossa, nunca tinha ouvido falar nesse livro. O título me chamou muita atenção e a descrição ainda mais! Com certeza entrará pra minha wishlist de 2016!
    Beijos!

    http://mechamadebella.blogspot.com.br/2016/01/tenha-foco.html?m=1

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